Celebrar a Beleza da Fé

Celebrar a Beleza da Fé

Artigo de Dom Edson Oriolo, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte
Nos últimos anos é comum encontrar nas dioceses, paróquias e comunidades pessoas que buscam celebrações alegres, festivas, com muitos símbolos e ornamentos bonitos. Preocupações que privilegiam a beleza externa das celebrações com encenações religiosas dramáticas e teatralização da fé, esquecendo o aspecto da interioridade do mistério celebrado.

Embora nossa cultura seja tecnologicamente sofisticada, ela carrega alguns traços primitivos em certas expressões religiosas que aparecem na forma simbólica, alegórica e porque não dizer, mágica. Mas as paróquias vivem uma realidade de estetização generalizada, cujos objetos adquirem constantemente uma funcionalidade primária de embelezamento.

A estratégia da globalização influencia a necessidade da estetização do cotidiano; as pessoas acabam tendo uma grande preocupação com o belo, principalmente em relação às suas crenças. Desse modo, muitas vezes, a grande preocupação dos fiéis com o embelezamento das celebrações deixa de lado a beleza do conteúdo doutrinal a ser aprofundado e vivido. É preciso resgatar o verdadeiro sentido da beleza como nos fala o papa Bento XVI em muitas de suas obras e em diversos contextos: “a beleza, antes de tudo, é coerência: coerência da criação, da revelação, da tradição e coerência também do homem receptor da obra divina”; “A beleza cristã não é superficial. Inclui a cruz do Filho encarnado e com ela a verdade sobre a dor”; “Uma beleza não aberta a Deus reclui o homem nele próprio e é capaz de levá-lo ao desespero ou a um espiritualismo sem estreita relação com Deus”; “Os que creem devem mostrar a beleza de sua fé em autênticas cerimônias, sobretudo, em sua liturgia”.

Frente a “Celebrações – Espetáculo”, as paróquias são chamadas a vivenciar o belo nas celebrações do Mistério Pascal, nos seguintes aspectos do Mistério: a memória salvífica, o momento da graça, a alegria da esperança. Como nos ensina o papa Francisco: uma ideia, um sentimento e uma imagem (cf. Evangelium Gaudium 157).

a) A memória salvífica (uma ideia)

A grande missão da Igreja é evangelizar e levar a boa notícia. Na era da estetização da fé, as homilias estão perdendo a sua relevância para as dramatizações, e as celebrações do Mistério Pascal tornam-se eventos semelhantes a programas de auditório. O importante é bater palmas, estender as mãos, dançar mantras, gritar vivas, aplaudir e balançar lenços ou bandeirinhas. O presbítero passa a ter uma função análoga a de um animador de auditório.

Mas, na contramão de tudo isso, o que os fiéis necessitam é de boas e preparadas homilias com argumentos bem fundamentados. E uma boa homilia tem começo (despertar curiosidade), meio (explicar a Palavra de Deus) e fim (apontar para o mistério celebrado). Supõe esmerada preparação para comunicar o essencial. O segredo de uma homilia capaz de transformar corações é uma longa adoração diante do Santíssimo, conforme afirmou Ivan Cardeal Dias, arcebispo de Bombaim (Índia), em sua intervenção durante o Sínodo dos Bispos, em outubro de 2007, que teve por tema “ A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”. A meditação pessoal é essencial para que a assembleia seja tocada pela palavra.

b) O momento da graça (um sentimento)

As celebrações sacramentais são ações de Cristo Sacerdote para a vida de seu corpo, a Igreja. São ações cuja eficácia, em título e grau, transmite a graça como nenhuma outra ação da Igreja. É a gratuidade da graça que lhe dá o caráter festivo que se expressa por palavras, gestos, ações simbólicas, ritos… Sinais sensíveis! (cf. SC 7). O conjunto das celebrações litúrgicas está em íntima relação com a Eucaristia, pois, com os ritos iniciais e os ritos finais, emoldura a proclamação da Palavra e a partilha do pão eucarístico. A Palavra e a memória de Jesus pelo pão e vinho constituem uma sequência lógica e teológica, um só ato de culto (cf. SC 56).

A beleza das celebrações sacramentais com seus sinais e símbolos, com suas palavras e gestos, com seus cânticos e música, as suas imagens e cores, eleva-nos a uma verdadeira comunicação com o transcendente. Com dizia Simone Weil: a beleza está para as coisas como a santidade está para a alma.

c) A alegria da esperança (uma imagem)

A celebração do Mistério Pascal se dá por meio de um conjunto de ações simbólicas, pois expressa o grande mistério da esperança cristã. Gestos, palavras e ações visam à atualização da memória de Jesus, cuja presença se faz sacramento. Por isso, o uso de símbolos ocorre não apenas pelo gosto da novidade, mas por sua capacidade de expressar o que é essencial àquilo que se celebra ritualmente.

Uma liturgia sacramental deve ser tecida com os sinais e os símbolos que expressam as dimensões da fé e da esperança e que são por ela alimentados. Temos infinidades de sinais e símbolos que poderiam ser valorizados dentro de uma criatividade mais adequada aos anseios dos participantes e ao caráter específico das celebrações que se realizam: água e unção, pão e vinho partilhados; dar a paz e sentar-se à mesa; ajoelhar e impor as mãos; caminhar e cantar. Os livros litúrgicos (missal, lecionários: dominical, semanal e santoral, evangeliário) prescrevem o essencial, mas deixam espaço para criatividade. Os espaços celebrativos (altar, ambão, credência, presbitério, sacrário), os objetos litúrgicos (cálice, âmbula, castiçal, candelabro, cruz, velas, ostensório) e as vestes talares (túnica, casula, estola, dalmática, véu umeral) dão o caráter sagrado. Mas é fundamental a interioridade a ser buscada pelos momentos de silêncio. Guarde-se, em seu devido tempo, um silêncio sagrado (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 30) e como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado (cf. Instrução Geral do Missal Romano, n. 23).

Finalmente, a memória salvífica vivida como momento da graça seja motivo de grande alegria neste momento da história. Em sintonia com o desejo dos padres conciliares, “sejam expressas as razões da nossa esperança” (1Pd 3,15).

Dom Edson José Oriolo dos Santos é bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, mestre em Filosofia Social pela PUC Campinas, especialista em Aristóteles, pela Unicamp, e em Marketing, pela Universidade Gama Filho. Também pela Universidade Gama Filho, é pós-graduado em Gestão de Pessoas.

Fonte: Arquidiocese BH